Capitulo 5

PDV Bella

Só me lembro da dor, e do rostinho de Reneesme…

O escuro tomou conta de meus olhos mais forte do que antes. Assim como uma cegueira espessa, firme e rápida. Cobrindo não apenas meus olhos, mas eu inteira com um peso esmagador. Era exaustivo lutar contra isso. Eu sabia que era muito mais fácil desistir. Deixar essa escuridão me puxar para baixo, baixo, baixo; para um lugar onde não existia dor e medo, e nada para temer ou se preocupar.

Se eu estivesse apenas por mim mesma, eu não seria capaz de lutar por muito mais tempo. Eu era apenas uma humana, que agora já não possuía a força humana.  Mas isso não era apenas sobre mim. Se eu não fizesse a coisa certa agora, a escuridão do nada me apagaria, e eu o machucaria. Reneesme, Edward.

Minha vida e a dele misturadas numa mesma estrada. Corte um, e cortará ambos. Se ele fosse, eu não seria capaz de viver por muito tempo. Se eu for, ele provavelmente não irá viver muito mais. E um mundo sem Edward seria completamente sem graça. Edward tem que existir, mesmo não estando ao meu lado.

Mas aqui estava tudo tão escuro que eu não podia ver qualquer um de seus rostos. Nada parecia real. Isso tornava difícil não desistir. Eu me mantinha empurrando contra a escuridão, no entanto, quase um reflexo, uma reação involuntária. Eu estava apenas resistindo.

Eu estava apenas resistindo, não me permitindo ser esmagada completamente. Eu não estava no Atlas, e a escuridão parecia tão pesada quanto um planeta; eu não podia ver o ombro dele. Tudo o que eu podia fazer era não ficar completamente apagada.

Era uma espécie de padrão para a minha vida – eu nunca tinha sido forte o suficiente para lidar com as coisas fora do meu controle, para atacar os inimigos ou impedi-los. Para evitar o sofrimento humano e sempre fraca, a única coisa que eu nunca fui capaz de fazer foi continuar, resistir, sobreviver.

Eu tinha sido suficiente até certo ponto. Teria de ser suficiente hoje. Gostaria de suportar isto até chegar ajuda. Eu sabia que Rosálie ia fazer tudo que pudesse que não desistiria, nem eu. Eu me prendi à escuridão,  presa a uma borda por apenas alguns centímetros.

Não era suficiente, porem eu tinha determinação. À medida que o tempo sobre a terra e a escuridão passava, ganhavam por poucos oitavos e dezesseis dos meus centímetros. Eu não podia chamar Rosálie, nem Edward, nem Alice, Charlie, Renée, Carlisle, Esme… Ninguém.

Isso me aterrorizava, e me fazia perguntar se era tarde demais. Senti-me eu próprio escorregamento não havia nada para deter aquilo… Não! Eu tinha que sobreviver a isto. Reneesme precisava de mim!

E depois, mesmo ainda não podendo ver, de repente eu podia sentir algo. Como membros fantasmas, eu imaginei que podia mexer meus braços de novo. E neles, alguma coisa pequena, pesada e muito, muito quente. Meu bebê. Meu pequeno encorajador. Eu tinha conseguido. Mesmo contra as probabilidades, eu tinha sido forte o suficiente para sobreviver a Renesmee, para agüentá-la dentro de mim enquanto ela não era forte o suficiente para viver sem meu apoio

Aquele pequeno coração em meus braços fantasmas parecia tão real. Eu segurei mais perto. Era exatamente onde meu coração devia estar. Segurando fortemente a quente memória de minha filha, eu sabia que eu seria capaz de afastar a escuridão por tanto tempo quanto fosse necessário.

O calor perto do meu coração ficou mais e mais real cada vez mais caloroso, fervendo. O coração era tão real que era difícil acreditar que eu o estava imaginando, fervendo desconfortavelmente agora. Muito quente muito, muito mais quente. Como se tivesse segurado ferro fervente – minha resposta automática foi largar a coisa chamuscaste dos meus braços.

Mas não havia nada em meus braços. Meus braços não estavam ligados ao meu pescoço. Meus braços eram coisas mortas, largadas em algum lugar ao meu lado. O coração estava dentro de mim. A queimação aumentou – aumentou e chegou ao ponto máximo e então aumentou até certo ponto que ultrapassava a tudo que eu já havia sentido.

Eu senti a pulsação atrás do fogo em meu pescoço, e percebi que eu havia achado meu coração novamente, desejando nunca ter o encontrado. Desejando que a escuridão me abraçasse enquanto eu ainda tinha a chance. Eu queria erguer meus braços e arrancar meu coração de dentro do peito – qualquer coisa que causasse tal tortura. Mas eu não podia sentir meus braços, não podia mover nem um dedo sequer.

James quebrou minha perna em baixo de seu pé. Aquilo não era nada, aquilo era um lugar confortável em uma cama feita de penas. Eu preferia aquilo agora cem vezes mais. Cem vezes ser quebrada, eu preferiria e seria grata. O bebê, quebrando minhas costelas, me quebrando pedaço por pedaço para abrir caminho, aquilo não era nada.

Aquilo era flutuar em uma piscina de água gelada. Eu preferiria mil vezes, e seria muito grata. O fogo ficou mais quente e eu queria gritar. Implorar para alguém me matar agora, antes que eu vivesse mais um momento com essa dor. Mas eu não podia mover meus lábios. O peso ainda estava lá, me pressionando. Eu percebi que não era a escuridão me segurando; era o meu corpo. Tão pesado.

Mantendo-me nas chamas que estavam mastigando o seu caminho para fora do meu coração, espalhando uma dor inacreditável em meus ombros e estomago, subindo queimando pela minha garganta, surrando o meu rosto. Por que eu não podia me mover? Por que eu não podia gritar? Isso não fazia parte das histórias. Minha mente estava insuportavelmente limpa – afiada pela dor – e eu vi a resposta tão rapidamente quanto eu pude formar as perguntas. A morfina.

Parecia ter sido a milhões de décadas atrás que nós havíamos discutido aquilo – Rosálie e eu esperávamos que muitos analgésicos ajudariam a afastar a dor do veneno. Carlisle havia tentado isso com Esme, mas o veneno havia queimado na frente do medicamento, fechando suas veias. Não houve tempo para que se espalhasse. Eu mantive meu rosto suave e acenei com a cabeça, e agradeci minhas raras estrelas da sorte que o Edward não estava ali.

Porque eu tinha morfina e veneno juntos nos meu sistema antes, e eu sabia a verdade. Eu conhecia que a dormência do medicamento era completamente irrelevante enquanto o veneno queimava através das minhas veias. Mas não tinha como eu mencionar esse fato. Nada que o fizesse mais relutante em me mudar. Eu não havia adivinhado que a morfina teria esse efeito – que me prenderia pra baixo e me amordaçaria. Manteria meu corpo paralisado enquanto eu queimava.

Eu conhecia todas as histórias. Eu sabia que Carlisle se manteve quieto o suficiente para evitar ser descoberto enquanto ele queimava. Eu sabia que, de acordo com Rosálie, não adiantava gritar. E eu esperava que eu pudesse ser como o Carlisle. Que acreditaria nas palavras de Rosálie e manteria minha boca fechada. Porque eu sabia que cada grito que escapasse dos meus lábios atormentaria Reneesme e Rosálie.

Agora isso parecia uma piada hedionda que eu teria o meu desejo realizado. Se eu não poderia gritar, como poderia dizer a ela para me matar? Tudo que eu queria era morrer. Nunca ter nascido. O conjunto da minha existência não valia essa dor. Não valia passar por isso para mais uma batida de coração. Deixe-me morrer, deixe-me morrer, deixe-me morrer.

E, por um tempo sem fim, isso era tudo. Somente a tortura inflamável, e meus gritos inaudíveis, implorando para a morte vir, nada mais. Então isso foi infinito, sem começo nem fim. Um momento infinito de dor.

A única mudança veio quando, de repente, impossivelmente, minha dor dobrou. A metade inferior do meu corpo, amortecida desde antes da morfina, repentinamente estava em fogo também. Alguma conexão quebrada havia sido curada – ligada pelos dedos ferventes da chama.

A queimação sem fim se encolerizou. Poderiam ter sido segundos ou dias, semanas ou anos, mas, eventualmente, o tempo veio a significar algo novamente. Três coisas aconteceram juntas, crescendo uns dos outros, então eu não sabia qual veio antes: o tempo recomeçando, o peso da morfina desapareceu, e eu fiquei mais forte.

Eu podia sentir o controle do meu corpo voltar para mim com acréscimos, esses acréscimos foram as minhas primeiras marcas do tempo passando. Eu sabia disso quando era capaz de movimentar meus pés e minhas mãos em punhos. Eu sabia disso, mas eu não o fiz.

Apesar do fogo não ter diminuído nenhum grau – na verdade, eu comecei a desenvolver uma nova capacidade para experimentar isso, uma nova sensibilidade para apreciar, separadamente, cada língua empolada da chama que lambia através das minhas veias – eu descobri que conseguia pensar através disso. Eu conseguia lembrar o porquê que eu não deveria gritar. Eu conseguia lembrar a razão pela qual eu agüentei essa agonia insuportável. Eu conseguia lembrar que, apesar de parecer impossível agora, havia algo pelo qual talvez valesse à pena essa tortura.

Isso aconteceu bem a tempo de que eu agüentasse, enquanto os pesos deixavam meu corpo. Para qualquer um me assistindo, não haveria mudança. Mas para mim, enquanto eu lutava para manter os gritos e a dor trancados dentro do meu corpo, onde eles não pudessem machucar mais ninguém, era como se eu tivesse passado de ser amarrada a uma estaca enquanto queimava, a me agarrar àquela estaca para me manter no fogo.

Eu tinha só a força necessária de ficar deitada ali sem me mover enquanto estava sendo carbonizada viva. Minha audição ficava cada vez mais nítida, e eu conseguia contar a batidas esmagada e frenéticas do meu coração para marcar o tempo.

Eu podia contar os suspiros superficiais que arfavam através dos meus dentes. Eu podia contar os suspiros baixos que vinham de algum lugar próximo a mim. Esses se moviam mais lentos, então me concentrei neles. Significam mais tempo passando. Mais até que o pêndulo de um relógio, aquela respiração me puxou daqueles segundos queimando até o final. Eu continuava a ficar mais forte, meus pensamentos mais claros. Quando novos sons vinham, eu podia ouvi-los.

Tinha passos leves, o sussurro do vento passando por uma porta aberta. Os passos ficaram mais próximos, e eu senti uma pressão na parte de dentro do meu pulso. Eu não podia sentir o gelado dos dedos. O fogo mandou embora cada memória do frio.

– Merda! Vamos lá Bella… – A pressão mais leve, respiração na minha pele queimada.

– De algum sinal… Bella? Você pode me ouvir?-Eu sabia, sem nenhuma dúvida, que se eu destrancasse meus dentes eu perderia – eu gritaria e guincharia e me debateria e espancaria. Se eu abrisse meus olhos, se eu se quer contraísse meu dedo – seria a chance de eu perder o controle.

– Bella? Bella? Você pode abrir seus olhos? Você pode apertar minha mão?-Pressionaram meus dedos. Foi difícil não responder aquela voz, mas eu fiquei paralisada. Eu sabia que a dor naquela voz agora não era nada comparada ao que poderia ser. No momento, ela só temia que eu estivesse sofrendo.

– Talvez… eu, talvez eu estivesse muito atrasada. – A voz de Rosálie era baixa, despedaçada, se quebrando na palavra atrasado. Minha respiração parou por um segundo.

Eu queria muito responder a ela, mas eu não podia abrir a boca, se não eu gritaria. Não enquanto eu tinha força para me segurar. Apesar de tudo isso, o intenso fogo estava me queimando. Mas tinha muito espaço na minha cabeça agora. Espaço para considerar os passos dela, espaço para lembrar-se do que aconteceu, espaço para olhar para o futuro. E ainda espaço sem fim havia sobrado para sofrer. E também para se preocupar. Onde estava meu bebê? Porque ela não estava aqui? Porque Rosálie não estava com ela.

Eu comecei a contar as respirações ela para contar o tempo. Dez mil nove mil e quatrocentos e três respirações depois ela voltou a falar sozinha…

– Quanto tempo mais? – perguntou a si mesma. Por quanto tempo essa tortura ia continuar? Por quanto tempo ainda eu queimaria? Dez mil? Vinte mil? Outro dia – oitenta e seis mil quatrocentos? Mais que isso?

Cada célula do meu corpo tinha sido queimada até virar pó. Escutei Rosálie se movimentando fora do quarto. Escutei o ruído baixo do tecido da roupa que ela usava raspando em seu corpo. Escutei o zumbido fraco da luz pendurada no teto. Escutei o vento leve tocando o lado de fora da casa. Eu podia escutar tudo.

– Está na hora do lanchinho mostrinha. – Rosálie falava com uma voz doce! Mas para quem? Logo deduzi: Renesmee. Eu tentei escutar mais, mas não havia nada além do som de uma mamadeira sendo sugada, interessante o suficiente para me distrair da dor, então eu escutei a respiração de Rosálie de novo, contando os segundos.

Vinte e um mil novecentos e dezessete e alguns segundos depois, a dor mudou. Do lado bom da coisa, começou a desaparecer das pontas dos dedos das minhas mãos e dos pés. Desaparecer lentamente, mas pelo menos era alguma coisa diferente. Tinha que ser, a dor estava sumindo…

E então, o lado ruim. O fogo em minha garganta era o mesmo que antes. E não era só fogo, mas agora estava seca também. Seca como ossos. Muita sede. Fogo queimando, e queimando de sede e também o lado pior: o fogo dentro do meu coração ficou mais quente. Como isso era possível? Meus batimentos, que já estavam rápidos, aumentaram – o fogo deixou o ritmo ainda mais frenético.

– Renesmee, escute. – Rosálie falou. A voz dela era baixa, mas clara. Eu sabia que Renesmee não compreenderia.

O fogo saiu de minhas mãos, deixando-as felizmente sem dor e frias. Mas foi para o meu coração, que ardeu quente como o sol e começou a bater a uma velocidade furiosa. Rosálie entrou no quarto. Seus passos eram tão distintos, eu podia até dizer que Rosálie estava na direita e um passo à frente de mim

– Escute – Ela sussurrou novamente. O som mais alto no quarto era o do meu coração elétrico, batendo no ritmo do fogo.

– Ah – Rose disse – está quase acabando. -Meu alívio as suas palavras foi ofuscado pela dor excruciante no meu coração. Meus pulsos estavam livres, e meus tornozelos também. O fogo tinha sumido totalmente dali. Ela desceu novamente para o outro andar

– Logo. – Alice concordou ansiosa. – Logo sua mãe ira despertar. Fique aqui quietinha. -O quê? Não. Não! O que ela quis dizer, manter meu bebê longe? O que ela estava pensando? Meus dedos se debateram – a irritação transparecendo pela fachada perfeita. O quarto ficou silencioso a não ser pelo martelar de meu coração enquanto, em reposta, Rose parou de respirar por um segundo. Sua mão apertou meus dedos instáveis.

– Bella? Bella?-Eu poderia respondê-la sem gritar? Eu considerei isso por um momento, e então o fogo passou ainda mais quente por meu peito, drenando de meus cotovelos e joelhos. Melhor não arriscar. E então – ah! Meu coração disparou, batendo como asas de um helicóptero, o som era quase uma nota aguda solitária; parecia que ia escapar pelas minhas costelas.

O fogo incendiou o centro do meu peito, sugando os últimos indícios das chamas do resto do meu corpo para dar combustível à brasa mais quente até então. A dor era suficiente para me derrubar, para quebrar meu aperto de ferro que eu sustentava. Minhas costas doeram, curvadas como se o fogo estivesse me levantando pelo meu coração. Eu não deixei nenhuma outra parte do meu corpo se levantar quando meu tronco desmoronou na mesa.

Aquilo virou uma batalha dentro de mim – meu coração disparado contra o ataque do fogo, os dois estavam perdendo. O fogo estava condenado, tendo consumido tudo que era inflamável; meu coração galopava em direção a seu ultimo batimento. O fogo reduziu, concentrando-se dentro do único órgão humano que restava, com uma explosão final, insuportável. A explosão foi respondida com uma pancada de som profundo e oco. Meu coração vacilou duas vezes, e então bateu calmamente só mais uma vez. Não houve som algum. Nem respiração. Nem mesmo a minha. Por um momento, a ausência da dor foi tudo que eu pude compreender. E então eu abri meus olhos e observei acima de mim, assombrada.

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  1. Será que seria tão doloroso assim virar vampira?… Se existisse claro!

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